Acabei de ler um livro do Tolstói que apareceu na minha vida de forma inusitada - uma sugestão do Kindle. Eu, que há um tempo considerável venho abrindo meus braços para novas ideias e circunstâncias, acolhi esse livrinho eletrônico (com um certo receio inicial, confesso) e devo dizer que passei a ler mais desde então. Esse ano já passei dos vinte livros - recorde até pra quem nunca contou leituras - com ecos silenciosos de surpresa e alegria que vêm de todo esse mosaico de personagens, aprendizados e descobertas.
Abri meu Kindle na semana passada e lá estava ele, Tolstói, brilhando na minha tela com um título bastante sugestivo: “De quanta terra precisa um homem?”. Admito que refleti sobre essa pergunta antes de me lançar à nova aventura. Imaginei se seria um livro sobre o marxismo, o comunismo, o socialismo, o capitalismo, o nepotismo, o chauvinismo ou qualquer -ismo que nos empalidece, emburrece, adoece as criaturas terrenas que enchem a boca para se denominarem seres pensantes. Devagar e deliciosamente constatei que tratava-se de um emaranhado de histórias curtas, em uma estrutura semelhante às parábolas bíblicas, com narrativas fantásticas e lições implícitas. Tão fantásticas eram as narrativas que havia gente acolhendo gente pelas ruas, gente doando terras, gente agradecendo e fazendo o bem sem pudor algum, against all odds. No meio desse comportamento tão confuso, as pessoas iam caminhando e acertando sem querer, seguindo instintos de empatia e proteção ao outro com um senso de enternecimento pelo semelhante que me tocou, profundamente.
Era como se todos tivessem sintonizado na estação Jesus, como se de repente todo mundo soubesse instintivamente o que fazer, num efeito dominó do bem. Lendo sobre o autor, soube da sua “conversão tardia” ao que chamaram “cristianismo anarquista e pacifista”. Compreendi que, para ele, não é necessário carteirinha de sócio-torcedor para viver os preceitos éticos trazidos pelo cristianismo - o time AnarCristo não respondia a ninguém mais, não precisava. Absorvi essa reflexão com a lucidez que ela requer: mais do que interessante, coerente, necessária, libertadora. Essa breve pesquisa trouxe outra leitura para minha lista: “Uma confissão”, de 1882, no auge da crise existencial de Tolstói. Pergunto a você: quem nunca? Quem nunca questionou o sentido da vida que atire a primeira pedra. O sentido da vida, o propósito da existência, as relações kármicas, as lições mal aprendidas… you name it - tais dilemas passeiam corriqueiramente pelas nossas cabeças, percorrem nossa corrente sanguínea e muitas vezes nos paralisam ou impulsionam. Na falta de resposta nos anestesiam, nos calam, nos levam pra esse status quo da descrença, da desesperança, autoflagelo ou autoindulgência programada (autossabotagem: muito prazer). Na angústia do pesadelo a céu aberto, do labirinto que nos separa de nós mesmos, desconectamo-nos dos comos, dos porquês, sempre escravos do quando. Seguimos atados ao que (não) foi, projetando toda a felicidade e realização na próxima esquina, na luz que há de brilhar adiante se a gente fizer tudo certo - como se houvesse algo do tipo. Aí vem um tipo do século XIX, precursor do cristianismo anarquista e pacifista, que depois de muito filosofar sobre o que importa, escreve despretensiosamente em um livro curtinho “qualquer”:
"(...) há somente um, apenas e tão somente momento mais importante... Agora! É a hora mais importante porque é a única em que podemos fazer alguma coisa. O homem mais necessário é aquele que está com você nesse momento, pois ninguém sabe se depois estará com outra pessoa e se poderá fazer algo por ela. E a coisa mais importante é fazer o bem, porque esse é o único propósito da vida!"
Ouvi um microfone caindo? Elementar, mas não óbvio, nada simples. E depois de ler e reler esse trecho, que quis tatuar na pele e na memória, tentei percorrer essas ruas de leveza e simplicidade, lavar com grandes e abundantes baldes dágua cada uma das minhas calçadas, sentar sem receio em alguma daquelas vielas vazias e esperar tranquila pelas criaturas que devagar e deliciosamente haveriam de brotar das esquinas com seus bem-me-queres, suas singularidades, suas flores nas mãos e a voz mansa de quem sabe o que esperar do lado de cá… e insiste em ficar ainda assim. A cada dia há mudanças pontuais no percurso: nos transeuntes, na paisagem, nas condições da espera que se redesenha com o livre fluir dos sentimentos. Muitos foram os autores (inclusive russos) que criaram utopias onde as emoções não se enquadram. Aprendi ao lê-los que prefiro honrar minha condição de terráquea, mundana e diversa, indecisa e incompleta, atropelando o hoje com erros e bobagens, tropeçando em débitos, em medos e sonhos, lendo Tolstói e Dostoiévski de coração esbugalhado, esbodegado, louco pra pulsar esse carpe diem comedido, ecos silenciosos de quis dizer, diante desse mosaico de personagens, aprendizados e descobertas, sinto; logo sou - sou porque sinto-muito.